segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Outras Antropofagias Amazônicas

O Projeto Outras Antropofagias Amazônicas foi premiado pela Bolsa de Circulação Literária 2012 da Fundação Biblioteca Nacional / FUNARTE. Será desenvolvido nos municípios de Uiramutã e Pacaraima, em Roraima, e Nhamundá e Parintins, no Amazonas. O texto literário premiado foi Tu’kan pimi wî’po – Tem muita pimenta na serra.

Uiramutã - Roraima

sábado, 4 de agosto de 2012

Tu’kan pimi wî’po – Tem muita pimenta na serra

Passa pimenta nos olhos menino, para andar na mata. Curumim do Monte Roraima. Anda com cuidado, pede licença para a folha do tajá. Passa pimenta nos olhos, em tuas feridas, forma tuas cicatrizes, mas não laves a cuia suja nas águas do rio, que causa tempestade, atrai assombração. Vai que em teu encalço está o Canaimé - outros canaimés - o invasor de tuas terras. Passa pimenta, rapa tua cabeça e planta pimiro – pimenta do curupira. Planta em teus olhos a sumaúma e a antena de celular, o orelhão da Embratel, os barcos a motor que substituem tuas canoas. Chama Pedro Álvares Cabral, para redescobrir estas terras, ou melhor, para cobri-las novamente, restaurando tuas florestas, redeflorando tuas iracemas. Chama o Senhor Pero Vaz de Caminha, com seu notebook, pra que escreva outras notícias, as novas - um poemail para o Império.
 
Em meio à 41ª assembleia indígena, no idílico Lago Caracaranã, uns malucos fumavam maconha, enquanto todos tomavam seu banho matinal. O Caracaranã começou a sorrir sem parar. Suas ondas bailaram muito. Escutou-se um burburinho na água - Splop! Splop! - mini redemoinho de onde pulou um Peixe-Deus, e gritou: Vai Corinthians! Macunaima retornou do sul, com sotaque e escamas paulistas. Trouxe com ele a FUNAI, o SUS, e outros benefícios sociais. Depois vieram os tambores do Maranhão, una cosita o otra del Caribe e o Hare Hare Georgetown. A assembleia deu noticias ao Peixe-Deus: “Lá pra baixo tem uma cidade, está crescendo”. Eles reclamaram: “Macunaima mudou o mundo, e voltou mudado por ele. Lembra-te de teu povo revoltado. Pra quê tanta gente que subiu? Extremo-norte?” Macunaima saiu acuado; fugiu para encontrar resposta ou solução.


Quantas línguas tu tens na cabeça, menino? Profusão de etnias. Rápido, passa pimenta, curumim, te protege! Busca tua panela macuxi para trocar com teu parente, do outro lado da fronteira. That’s good! That’s vey good! Deixa cair de teu cocar a pena, que para os lados de lá[1] há pena de morte. Noutros tempos Sir Arthur Conan Doyle também andou por aqui. Veio, como outros literatos, prender teu parente nas páginas de um mundo perdido.

Segue a rota mítica criada por teu Deus-Menino, levado, zombeteiro. Rega novamente a árvore da vida – Wazaká – árvore de todos os frutos. Na tríplice fronteira ergue tua bandeira, folhas de bananeira, leva teu arco e flecha, e não esqueças o GPS. Reza para teus deuses, se quiser escolhe deuses alheios, mas solta teu grito de Hallelujah! Areruia! Areruia![2] Dança em roda, mede teus passos pelos passos de teus parentes. Convide karaiwá pra provar tua carne de caça, a carne da batata da perna do curupira que caçaste.

Malagueta murupi olho-de-peixe, pede licença para o dono dos bichos, para o dono dos peixes. Pede licença ao IBAMA para fazer tua roça, para retirar a palha de tua maloca. Toma consulta aos pajés, aos tuxauas de tua aldeia. Toma consulta aos órgãos federais, consulta seu CPF, seu saldo devedor. Esconde-te, vai chover, nuvens de tags revoam sob tuas terras. São as ressonâncias de nossa alta tecnologia ancestral. Sapos Om line ressoam um mantra para viagens estáticas.

Macunaima? foi atrás da grande mestra, aquela Boiúna de outros contos. Lá encontrou tudo mudado, maracás mecanizados, e a dança do calypso. Nos barcos e portos índias ofereciam serviços aos gringos - “I love Brazil!”. Ao mesmo tempo, o povo dali reclamava da Cobra Grande: “Nossos mitos nos traíram! Pega! Ou foram nossos poetas?” Os dois empinaram a cabeça para o outro lado, e foram se esconder na casa de Norato, que após deixar o corpo de cobra se tonou puxador do Caprichoso. Depois do Festival os três amanheceram em um poema de Manoel de Barros.

Macunaima voltou? Está novamente modificando o território, como fazia nos tempos antigos? Ah! Não! Não é Ele. São as hidrelétricas. Poraquê[3] entrou pelos fios de alta tensão e trouxe estas notícias. Amigo, menino, tua rota mítica está perdida, destruídas tuas memórias. Tuas águas envenenadas, dejetos de mercúrio. Teu tamanduá virou gari nas estradas. Todos sonham com a cidade - teus parentes aprendendo a esquecer nas escolas! A bíblia vai te ensinar a ler a língua do napë. “O Monte Roraima não é tão importante quanto o Sinai”, eles vão dizer.

Libélula grande pousou em tua aldeia. Dentro o comandante do exército. Na praça fincou uma bandeira. Outra. Não mais tuas verdes folhas. Disse que era para segurança do país. Ensinou a assoviar o hino nacional. Piasan veio, baforou fumaça, e disse: “coloca pimenta no ânus do menino, para crescer esperto, pra saber diferenciar o feio do belo, o falso do verdadeiro”.

Escuta menino, as histórias de teu pajé! “Primeiras estrelas saíram do céu da boca e do cachimbo”. Ouve estas histórias à beira fogo, aprende com elas. Curumim, tira teu beiju de tapioca do sol[4], tira a muda da maniva, y lleva a tus hermanos. Vai visitar teus parentes que não reconhecem estas fronteiras. Aproveita que por lá com apenas cinco bolívares tu llenas el tanque de combustible de tu carro. 

Ai! brinca, ai! bebe caxiri, ai! toma banho no rio e viaja de avião. Viaja de avião e caminha três dias a pé para visitar o teu cunhado. Pega bicho-de-pé. Em tua aldeia a pimenta arde em arte, tropicália de sons e faunas insondáveis. Sobe nos galhos de Wazaká e come caju, banana, mamão, vira fogo e sobe a serra, vira água e desce a corredeira, vira vento, que assim ninguém te pega.

A assembleia está encerrada, menino. Passa pimenta na palavra, com caça, com força. O encontro acabou e os povos vão voltar à suas malocas. Não se preocupe com Macunaima. Ele adormece invisível em um verso autofágico deste poeta. Envelheças o rapé de paricá e ressoe sonoro estes escritos. Amanhã Vovó Sapa vem brincar na água.

Texto: Priscila Borges e Vinícius de Carvalho

[1]Na República Cooperativista da Guiana alguns crimes são unidos com Pena de Morte, acontecendo a diversos indígenas, guianenses e brasileiros.
[2] Rito sincrético indígena-cristão, herança das missões prestantes na tríplice fronteira de Brasil, Venezuela e Guiana.
[3] Peixe-elétrico.
[4] Dentro de Wätunnä - ciclo de história do povo Ye’kuana – há uma profecia que diz que o Sol vigia se ainda há beiju a secar nos telhados.  Quando as mulheres não colocarem seus beijus pra secar ao sol, saberão que não há mais ye’kuanas no mundo, que será destruído por catástrofes.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Panela Macuxi

A cerâmica é o artesanato mais representativo das mulheres macuxis, principalmente daquelas da região da Raposa. Tradicionalmente eram produzidas somente panelas, hoje outros produtos, como jarros, potes e pratos, surgem da criatividade e das mãos habilidosas das artesãs. 

O processo de fabricação das panelas se inicia no momento da retirada do barro. As mulheres relatam que as ceramistas mais antigas obedeciam a um ritual para retirada do barro, que compreendia em pedir licença ao dono do barro, passar urucum no corpo, passar e comer pimenta e fazer certas orações. 

Apesar de ser um artesanato reconhecido localmente, as artesãs ainda têm muita dificuladade na comercilaização de seus produtos, e não possuem uma organização ou cooperativa que possibilite maior acesso ao mercado. 


terça-feira, 20 de março de 2012

Cidade Pomar


Boa Vista é como um viveiro de pássaros. Canários, pardais, bem-te-vis, maritacas e outros que não sei o nome, de cores e cantos variados. Como se todos os pássaros do lavrado viessem se refugiar nesse oásis, lugar onde todos os quintais têm pomares, onde os cajus e os jambos dão nas ruas, tanto ao ponto de perder, de sobrar, de alimentar gentes e passarinhos. 

Que são muitos, e que preenchem o som da cidade com seus cantos, que não dão oportunidade para intervalos de silêncio. A não ser à noite: quietude.

Mas que frutas são essas? Que cidade é essa? Capital de Estado que manteve seus terreiros, suas frutas e pássaros? Que espalham nas ruas pós, sons e aromas. Quais são nativas? (frutas). Quais são nativos? (pássaros). Quais foram introduzidos pela cultura e gosto dos que pra aqui vieram? Como se deu a composição do que aqui existia com o que veio de longe, transformando Boa Vista neste pomar? Chamariz de aves. 


terça-feira, 6 de março de 2012

Pia daktai - um “tempo de origem”

No elenco dos gêneros orais taurepang, as narrativas pessoais, assim como os mitos que tematizam as façanhas do herói criador Makunaíma, recebem o qualificativo de pandon, termo traduzido pelos Taurepang como “histórias”.

Os acontecimentos narrados nos mitos ocorrem em um tempo que os Taurepang chamam de Pia daktai, um “tempo de origem”, quando a terra, os homens e os animais assumem a forma que até hoje possuem, ao passo que as narrativas de cada um a respeito da sua vida e de seus pais teria acontecido “agora”, sereware, indicando tratar-se de acontecimentos muito mais recentes do que o ocorrido no Pia daktai.

A passagem de um tipo de relato a outro não obedece qualquer regra formal: nada impede que um informante passe do relato a respeito das peripécias de Makunaíma pela região do monte Roraima a um outro a respeito de uma aldeia situada na mesma área no tempo de sua juventude. Temos assim uma espécie de compressão do tempo à medida que a narrativa se aproxima do presente, um período mais repleto de detalhes e lembranças.

Makunaima
O ciclo mais importante da mitologia taurepang versa sobre a saga do herói cultural Makunaima, ora referido como uma só personagem, ora como um grupo de irmãos, como no relato colhido pelo padre C. de Armellada (1964:32ss). No “tempo da origem”, homens e animais possuíam a forma humana, pemon-pe. Compartilhando com os demais seres da terra uma existência pré-social, os irmãos Makunaima – nascidos da união do sol, Wei, com uma mulher feita de barro – perambulavam à procura do pai, que havia sido raptado pelos Mawari, espíritos malfeitores que habitam o interior das serras. É na região do monte Roraima que encontram novamente o pai cativo, que, uma vez livre de seus raptores, sobe ao céu, abandonando seus filhos na terra.

Os irmãos Makunaima permanecem na região do monte Roraima a vagar, seguindo alguns animais – entre os quais a cotia, akuri – a procura de comida. São esses animais que indicam ao herói a “árvore do mundo”, o wasaka, de onde retiravam todos os frutos comestíveis. Extasiado com a abundância dessa árvore, Makunaima, em um ato de avidez desmedida, a derruba. Do que restou do tronco jorrou muita água, o que veio a provocar uma grande inundação; ao dilúvio, sucede-se um grande incêndio, que destrói os homens e os animais. Após este cataclisma, Makunaima faz novos homens e novos animais com barro, dando-lhes vida (Koch-Grunberg, 1924/1981, II:43; Armellada, 1964:60). O Monte Roraima, contam os Taurepang, seria a raiz desta árvore que permaneceu após a grande inundação, apontando para sua forma, apesar das grandes proporções, semelhante a um tronco partido.

Este é o episódio mais comumente apontado entre as façanhas de Makunaima. Em diversas outras, o herói transforma os vários seres com que se depara em rochas. Ao final, Makunaima parte em direção a leste, para o outro lado do monte Roraima, deixando para trás um mundo onde permanecem cristalizadas, principalmente nas formações rochosas do território taurepang, diversos de seus feitos. Depois disso Makunaima não mais intervém entre os homens, deixando-lhes, porém, uma triste herança: o mundo a que ficam relegados já não possui a mesma natureza daquele em que se vivia antes do corte da grande árvore; os seres de “agora”, sereware, perderam a identidade que outrora possuíam, já não são todos Pemon. A alteridade é, assim, introduzida no mundo.Se antes todas as coisas eram gente, pemon-pe to ichipue, após a grande inundação os vários personagens que aparecem nos pandon distanciar-se-ão dos homens, localizando-se em domínios específicos e engendrando novas relações com os seres humanos, as quais estarão revestidas de um antagonismo explícito.


Fonte: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/taurepang/117