A ética Ye’kuana e o espírito do empreendimento (fragmento).
Karenina Vieira Andrade (Doutora em Antropologia pela Universidade de Brasília, Instituto Sociedade, População e Natureza – ISPN)
As histórias wätunnä são passadas
através das gerações, via de regra oralmente, e há diversos níveis de
conhecimento que se pode atingir. Todo indivíduo ye’kuana, homem ou mulher,
conhece em alguma medida ao menos as principais histórias wätunnä, aquelas sobre
os temas mais debatidos, como o surgimento do mundo e dos seres que nele
habitam.
Em geral, as mulheres são as que
detêm menor conhecimento sobre wätunnä; mesmo alguns rapazes muito jovens por
vezes sabem mais histórias do que mulheres mais velhas, caso estejam
interessados em dedicar-se à aprendizagem de wätunnä. Esse processo de aprendizagem,
que dura toda a vida, poderá transformar o estudioso em um historiador, um especialista
a quem se recorre sempre que é necessário e que fica responsável pelo treino de
estudantes da nova geração.
Há diversas regras que regem o
mundo de wätunnä e que tornam esse corpus de conhecimento singular. Tudo aquilo
que diz respeito ao que podemos entender como cultura, como algo a ser
apreendido, adquirido ao longo da vida, está contemplado em wätunnä.
Naturalmente, isso exclui o aprendizado daquilo que é estranho à cultura ye’kuana,
pois os Ye’kuana procuram aprender cada vez mais sobre a cultura dos “brancos”,
seja na escola, seja na operacionalização de tecnologias que acreditam possam ser
úteis à sua vida. Wätunnä explica também a existência das diferenças culturais
e da dominação tecnológica, que apontam como fator característico dos
“brancos”. Por serem os brancos donos dos aparatos tecnológicos, wätunnä não
contém ensinamentos sobre como manejá-los, e é por isso que os Ye’kuana
precisam adquirir este aprendizado diretamente dos brancos. Para se ter uma
idéia, pois, da dimensão de wätunnä, seria como se tentássemos contar toda a
história da humanidade desde o surgimento da terra, após o Big Bang, em uma
única narrativa, detalhada, que contaria a história de todos os povos e culturas
conhecidos.
Há certa aura ritual no processo
oral de contar uma história, um protocolo a ser seguido, por diversas razões.
Em primeiro lugar, não podemos esquecer a natureza sagrada das histórias, que
são narrativas dos acontecimentos ancestrais envolvendo importantes personagens
que deixaram lições aos seus descendentes. Sendo assim, há ocasiões adequadas
para narrar uma história. Ressalto aqui a existência de três níveis de profundidade
das histórias, embora David Guss (1989) afirme serem apenas dois: uma versão
mais resumida, com foco no caráter anedótico, e a versão completa, secreta e sagrada,
reservada aos rituais. Acrescento mais um nível, ou ainda, subdivido o nível anedótico
em dois; de fato, existem versões resumidas das histórias, destinadas ao cotidiano,
porém, se há aqui um “resumo do resumo”, este, sim, contado anedoticamente, há
uma versão mais completa, ainda que resumida, que também obedece a um protocolo
e deve ser contada em ocasiões específicas.
As versões contadas quando do
acontecimento de determinados eventos (um acidente ofídico, por exemplo, que
coloca toda a comunidade em resguardo até que a vítima saia de perigo) são mais
completas que as versões “anedóticas” e mais resumidas que as versões
reservadas a rituais, sendo que estas últimas nunca são contadas, mas cantadas.
As canções podem ser de dois tipos: a’chudi, cânticos usados para diferentes
finalidades, menos complexos e mais difundidos. É comum homens e mulheres mais
velhos conhecerem algumas a’chudi, como a destinada a purificar os alimentos a
serem ingeridos pela primeira vez por uma criança ou a serem consumidos por uma
menina que acaba de ter sua menarca, ou ainda para proteger um recém-nascido. O
outro tipo de canção são as ädemi, que efetivamente narram as versões completas
de wätunnä e são c(o)antadas em ocasiões especiais, como a festa que comemora a
derrubada da mata e plantação de roças novas, ädwaajä edemijödö (ädwaajä =
roça), festa que pode durar até quatro dias, durante os quais o cantador entoa
a ädemi, que narra detalhadamente, neste caso específico, como os ancestrais
ye’kuana plantaram a primeira roça e como fizeram a primeira festa depois do trabalho
encerrado, e celebraram a colheita que viria em breve. Por outro lado, os historiadores
ye’kuana também narram a história de como tudo isso aconteceu, relatando os eventos
principais. Quando afirmo que esta versão narrada é resumida, não significa que
sejam omitidos eventos, pois as canções não narram apenas, elas têm um ritmo
próprio quase hipnótico, em que o cantor, em monocórdio, descreve eventos,
chama por ancestrais ye’kuana, evoca símbolos cosmológicos, tudo isso
entremeado com a narrativa, fazendo com que novos acontecimentos sejam seguidos
de versos extenuantemente repetidos, como um refrão. Na versão contada, os
acontecimentos são narrados de maneira formal e as referências a símbolos
cosmológicos muitas vezes estão nas entrelinhas, expressos em formas
condensadas cujo significado me escapava.
As versões anedóticas, por sua
vez, são como “pílulas” que, simplesmente, são ditas por aqueles que conhecem
as histórias porque já ouviram de outros, mas não sabem contálas integralmente,
ou quando apenas se deseja responder às perguntas de uma criança curiosa ou
diminuir a ignorância da antropóloga recém-chegada sobre os mistérios do mundo
ye’kuana. Por que o papo do jacu é vermelho? Porque um dia ele engoliu o fogo
que Iudeeke e Shichamöna haviam roubado do sapo e escondido em uma montanha.
Por que a superfície da lua é coberta de manchas escuras? Porque ele (lua para
os Ye’kuana é um substantivo masculino) tentava enganar a irmã durante a noite,
deitando-se em sua rede na escuridão para que não fosse descoberto e, um belo
dia, para identificar o culpado, ela sujou as mãos e a vagina com tinta de
jenipapo e passou no rosto de lua durante a visita noturna, identificando-o de
manhã. Todas essas explicações são retiradas de histórias das quais esses eventos
fazem parte. As versões completas são contadas pelos historiadores e aqueles
que as ouvem guardam na memória as explicações para as coisas do mundo e os
ensinamentos morais retirados delas.
Apesar de serem boas para passar
o tempo nas noites monótonas em que as fofocas não rendem, ou para demonstrar
ao neófito quão grande é a sua ignorância, para os iniciados essas “pílulas”
também exercem uma outra função. Como a madeleine de Marcel, personagem de
Proust em Em busca do tempo perdido, as pílulas remetem narrador e ouvinte
iniciados às histórias que são velhas conhecidas. Elas os transportam ao
momento do passado em que lhes foi revelada uma história wätunnä, reavivam em
sua memória o ensinamento dos antigos, às vezes, com uma simples frase. Como
diria Lévi-Strauss, as “pílulas” wätunnä são boas para pensar, ou, como disse
Basso (1988), são “âncoras”, que evocam imagens, remetem os iniciados a um
mundo de significados, de lições morais e códigos de conduta.
Desnecessário dizer o quanto o
conhecimento wätunnä é valorizado e respeitado pelos Ye’kuana. O status que
pode atingir um renomado historiador é tão alto quanto o de um verdadeiro xamã.
Quando me diziam da importância dessas duas personagens em suas vidas, mais de
um Ye’kuana comparou o processo de aprendizagem e formação tanto de um
historiador quanto de um xamã com o estudo da medicina, seu exemplo por
excelência de um árduo caminho de formação dentre os brancos. Para eles, assim
como entre os brancos, apenas grandes homens dotados de muita inteligência
tornam-se médicos, somente um grande Ye’kuana, de notável inteligência e com
muita dedicação, poderá tornar-se um historiador ou xamã. O treinamento de um
jovem aprendiz é árduo e há um longo caminho a ser trilhado até que possa ser
considerado um verdadeiro xamã. Além da dedicação aos ensinamentos do mestre, o
aprendiz deve abrir mão de uma série de coisas de que os Ye’kuana gostam: sal,
diversas carnes e mulheres. Mesmo depois de formado, ele viverá uma vida de
austeridade.